sábado, 28 de junho de 2008

Sweetie

Era o último dia do mês de Junho do ano 1990. Por volta das 11 horas da manhã, numa sala do hospital de Cambridge, uma enfermeira entregou-me uma menina, que orgulhosamente coloquei no meu peito. Estava receoso que as minhas grandes mãos pudessem fazê-la mal, mas poucos minutos depois ela passou pelo sono agarrado ao meu dedo. Naquele momento, dei conta que era pai de mais uma criança.Nos primeiros anos, ela passava muito tempo comigo e desde então percebi que ela sempre quis saber que eu estava presente. Evidentemente, fiz os possíveis de estar no lugar certo para com os meus meninos, não apenas com o nome na certidão de nascimento mas, com uma forte, quente e amorosa presença na vida deles.Não faço a mínima ideia do que teria passado pela mente da minha filha quando naquela tarde do décimo quinto dia de Junho de 2008, ela se despediu de mim para o início de uma jornada, numa nova etapa da sua vida.Quanto a mim, vos digo que, dezassete anos de pai, passaram-se ante os meus olhos; o nascimento, as fraldas, as noites e dias de algum choro, o primeiro dia de escola, a ajuda nos trabalhos de casa, idas a piscinas, jogos, visitas aos museus, passeios em Boston, viagens, igreja etc. Sempre juntos, eu e ela, íamos a todos os lugares.Agora, por imperativos da vida (compromisso de igreja) não pude acompanhá-la, nem tão pouco estar presente no primeiro dia de uma longa e cansativa jornada. Ela talvez não tenha percebido, mas o coração virou-me do tamanho de um grão de milho quando ela veio para se despedir de mim.Não sei se foi o fim de uma fase de um relacionamento, mas pareceu-me que sim. Talvez, até dentro dela, quisesse me dizer: “ já sou crescida, obrigada pelas memórias, pelos conselhos, orações mas, “Adios” velho....” Todos esses pensamentos circularam numa fracção de segundos pela minha mente, antes de usar mais uma vez aquelas palavras típicas do pai e neste caso também do pastor: “Comporta-te bem filha, Deus estará contigo e pápá estará orando por ti.”Minha filha, entrava agora numa aventura sozinha. Ninguém perto para dizer como fazer isto ou aquilo; ninguém para evitar do “lobo” e ela tão pequenina aos olhos do pápá.Acompanhada da mãe, do irmão e de um primo, ela saiu e então eu entrei no quarto e pensei que esta é a realidade da vida: mudança. Pais e filhos, todos precisam de mudança. Entendi que afinal eu estava entrando numa nova etapa da minha vida, e que todo o tempo eu vinha preparando-a, não para passear, divertir, jogar, sem mim, mas para enfrentar o mundo sem mim. Com os seus próprios ideais, com os seus colegas, amigos mas acima de tudo com a sua própria fé em Deus.Com esta convicção, concluí que sabia que ela tinha de ir, que estava tudo certo, e que ela ficaria bem. Mas também entendi que não tivemos tempo suficiente para compartilhar um com o outro todas as emoções do nosso coração. Enquanto imaginava o trajecto de estrada, e perspectivava o desejado regresso mais tarde, quero que todos os meus irmãos saibam, que não foi difícil estar consciente de que muita coisa vai ser diferente apartir deste momento, mas que o meu amor por ela não vai diminuir nunca.Como acredito em Deus e na sua Santa Palavra estou descansado, pois o Salmista me recomenda no Salmo 37:5 “Entrega o teu caminho (preocupações, dúvidas, ansiedades, etc. etc.) ao Senhor, confia n’Ele, e Ele tudo fará.”
Delfino Andrade Silves Ferreira

Ângela & Sónia

Merecidas férias!!! Voltem depressa!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Tempo de Loucura

Com pouco mais de vinte anos, o homem viera enlouquecido de Santo Antão onde fora professor primário. Talvez por isso ligou-se rapidamente aos estudantes e tornou-se frequentador das redondezas do liceu onde cursávamos o último ano.
A presença de pessoas de horizontes diferentes era habitual, mas, o equilíbrio geralmente se mantinha a favor dos estudantes.
Porém, a euforia daquele ex-professor barbudo por tão exagerada não passava despercebida sem que por isso perdesse a nossa estima.
Merecia até uma atenção especial da nossa parte pelo seu jeito de falar, seu discurso e sobretudo pela alegria e gargalhadas quase constantes.
Nesse dia todas as actividades escolares estavam canceladas, devendo cada um de nós participar na recepção pública de uma comitiva de um país amigo.
A concentração era na praça central da cidade. O professor em férias forçadas acompanhou-nos. No local aninhámo-nos sob uma árvore e o amigo, muito animado não parava de falar.
Da varanda que servia de podium, alguém deu inicio à cerimónia. A apresentação dos visitantes era feita de forma intercalada com os vivas que a multidão respondia em uníssono e alguns aplausos ruidosos e prolongados. O homem transbordava de energia.
Depois das primeiras apresentações vieram homens e mulheres de condição visivelmente humilde. As palavras sobre o seu passado eram elogiosas e alguns tinham ascendido a lugares de alguma responsabilidade.
Regozijámo-nos sobretudo com a presença em tão alta delegação dessas mulheres que logo apresentadas, gritavam vivas com um sotaque peculiar.
Não durou muito que, mal chegasse uma das nossas predilectas, o nosso homem numa euforia singular, dobrava a língua e imitava, deturpando um pouco a pronúncia, de forma a gritar vivas às “palhas de chá”. E sem transição, o alecrim, a losna, a belgata, a cidreira e toda ervanária tradicional eram lembrados em vivas no meio de gargalhadas, para nossa grande satisfação.
Estranho foi o facto de alguns dias mais tarde num funeral de uma adolescente, quando alguém se lembrou do discurso fúnebre, ele se ter lembrado de novo dos seus vivas à ervanária nacional. Chegou-se a desconfiar que algum estudante o teria incitado.
Não passou muito tempo, tivemos a noticia que nosso amigo se enforcara num pardieiro do seu bairro. Na verdade, pouco tempo. Tempo de loucura!

- Daniel Silves Ferreira –
Psiquiatra

Vítimas do abandono

A senhora escreveu, em grande aflição, dizendo que fora abandonada, com seus onze filhos, pelo marido aventureiro. Desejava saber que passos tomar, que fazer em tal circunstância crítica.
O abandono é mais que problema isolado da esposa que assinou a carta. Queixam-se pessoas de todas as idades e condições dessa praga que se alastra pelo nosso mundo. Ora são infantes abandonados em caixas de sapatos ou mesmo em depósitos de lixo; ora são crianças deixadas no meio da rua ou em lugares ermos; ora são jovens a quem os pais convidam a desaparecer da sua vista; ora são cônjuges desertados a meio da noite; ora são velhos que se acham desamparados e sem recursos – em casas vazias de tudo, em asilos indiferentes, ou em hospitais aonde ninguém vai para os visitar.
Há, também, aquele outro abandono sofrido por muitos que, paradoxalmente, se acham cercados de gente, mesmo de familiares. É a rejeição emocional, aquele vazio transmitido pela experiência de que ninguém se importa com o que nos sucede.
A vida toma cores trágicas quando nos invade a impressão do abandono. Em alguns, isto causa uma profunda depressão; em outros, principalmente na classe jovem, há um recrudescimento de violência, como que um grito a assinalar uma vida ignorada.
Uma das mais trágicas conseqüências do abandono é a imagem que deixa nas suas vítimas de que para nada valem. Quando tratadas como lixo, tendem a classificar-se de lixo. Justificam até o comportamento baixo como natural em pessoas a quem a sociedade rejeitou como se de nada valessem.
O problema é antigo e universal. O salmista Davi escreveu: “Quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me receberá” (Salmo 27: 10). A situação de abandono não poderia ter sido pintada em cores mais negativas: rejeitado por pai e mãe. O cúmulo da solidão humana acha aqui simbolismo gritante. Dele recebemos a idéia de ausência total de carinho, proteção, sustento, estímulo, educação e bases de identidade. Em ambiente como este, danos psicológicos, morais e sociais atingem a escala máxima. Mas é também deste ponto que o Salmista faz a afirmação de maior significado para toda a vítima de abandono: “O Senhor me recolherá” (Salmo 27: 10).
Esta mensagem não é utópica ou um tipo de esperança oca sobre a qual indivíduos solitários tentarão reinventar. Estamos, também, em presença de uma promessa garantida de Deus. Ele nos recolherá – não a um asilo de caridade “oficial”, mas à intimidade de Alguém que nos ama supremamente.
“Quando o meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me recolherá”. A frase não prevê uma desgraça inevitável, mas acentua uma provisão animadora. Não há vida ou circunstância, por mais solitária, para a qual não haja o recurso da companhia de Deus.
É nas palavras do mesmo Salmista que achamos esta expressão de júbilo: “Até o pardal encontrou casa, e a andorinha, ninho para si e para sua prole, junto dos teus altares, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu” (Salmo 84: 3). Todo e qualquer abandonado pela insensibilidade ou pela dureza de homens, tem ainda o Braço Redentor – o de um Deus ansioso por recolher quantos criou pelas Suas próprias mãos. Mas, como agência de Deus na sociedade, cabe também à Igreja estender e acolher desamparados. Se a missão é demasiado grande para as nossas forças inventariadas, lembremos que a Igreja Lhe pertence e Deus jamais falhou em providenciar recursos para a Sua própria Casa. Junto dos altares de Deus, a solidão e o abandono devem ceder lugar ao companheirismo responsável de pessoas irmanadas em Cristo.

Dr. Jorge de Barros

terça-feira, 24 de junho de 2008

Pecado

“Qualquer coisa que enfraqueça a tua razão, obscureça a tua percepção de Deus ou usurpe o prazer das coisas espirituais, qualquer coisa que faça aumentar a autoridade do teu corpo sobre a tua mente, essa coisa é para ti pecado”.
Nunca me interessei em saber as qualificações académicas, de Susana Wesley, mãe de John Wesley – esse grande homem de Deus, inglês e pregador de santidade.
Qualquer um sente, no entanto, o nível espiritual da madame Wesley, quando proferiu uma das mais convincentes e esclarecedoras definições de pecado, se não para todos, pelo menos, para os seus queridos filhos!
Sim, esse mesmo pecado que alguns teimam em dizer ser uma invenção da igreja, para dificultar os homens de viverem a sua vida “di se manera”!
Digamos que para um exame em classe de teologia ou doutrina de santidade, fosse esta a resposta que o professor exigente aceitasse como correcta, para definir o pecado:”…desobediência voluntária a uma lei de Deus, conhecida…”!
Essa desobediência não é sinal de enfraquecimento da razão? Não é virar as costas a Deus e preferir as trevas? Que dizer, agora do objecto principal do nosso prazer? Não é o corpo a governar a mente? Afinal, convenhamos que nossa irmã Susana teria nota Excelente, se o exame apresentado tivesse uma única questão, (defina o pecado)!?
Teorizamos em demasia acerca do pecado, e deixamos nossos ouvintes e ovelhas, também, em grande confusão, a ponto de como “o outro”, que vociferou: “pecados não existem mais, pois foram todos cometidos no passado!!!
É responsabilidade nossa responder e ensinar ao nosso povo, com um categórico NÃO, a essa superficial e falsa afirmação!
Uma igreja de santidade, tem obrigação de ver seus santos, obreiros e leigos, a compartilhar a mensagem de libertação dos pecados e do pecado!
Felizmente, Seu sangue tem poder e o Espírito Santo opera ainda hoje.
“ A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vós todos”. Amém!

- Pastor Adérito Silves Ferreira -

QUEBRA CANELA

Com o calor que aperta, um mergulho com cuidado!!

UM DEUS ENCAIXOTADO

Por anos vivi junto a um porto movimentado.
Pela noite a dentro ouvia-se o apito de barcos. A qualquer hora do dia o cais pulsava de vida. Guindastes suspendiam caixas de formato e procedências mais diversos. Continham desde peças para carros a artigos de mercearia. Uns traziam caracteres orientais, outras letras e números num código qualquer.

Hoje encaixotamos tudo. Os próprios barcos e aviões têm grandes contentores onde a carga é empilhada para transporte rápido e mais seguro. Até quem desejasse, “encaixotar a Deus” e levá-Lo de lado para lado, onde mais urgente se fizesse Sua presença!

A experiência gorou com a chamada Arca da Aliança (ou do Testamento). Tratava-se de objeto central do Tabernáculo, uma espécie de templo portátil dos judeus. Construída de madeira de acácia, revestida de ouro por dentro e por fora, a Arca tinha um metro e 22 centímetros de comprido, por 76,23 centímetros de largura. Servia, especialmente, pára guardar as duas tábuas da Lei. Havia também nela uma vara simbólica pertencente ao sacerdote Arão, e um vaso com maná – tipo de alimento que salvou o povo na sua peregrinação pelo deserto.

As dimensões modestas e o conteúdo da Arca não traduzem, de forma alguma, a vastidão da importância que os antigos deram a esta caixa misteriosa. Era mais que a bandeira duma nação. Simbolizava a presença real de Deus no meio dum povo. A Arca recebia honras negadas a qualquer mortal. Só poderia ser transportada por um grupo seleto de pessoas sujeitas a rigorosos rituais de purificação.

Lemos dum episódio nacional no qual foi dada à Arca relevo extraordinário (I Samuel4). O país estava em guerra. O povo que se afiliava a Deus, professando possui-lo em exclusivo, marchou ao campo de batalha onde sofreu pesada derrota. Foi então que se lembraram da Arca. E se a levassem para o centro da refrega? Não representava a Arca a presença imediata de Deus? Por certo, pensavam eles, nada poderia derrotá-los tendo Deus a seu lado.
Levaram a Arca para a batalha. Mas, para surpresa de muitos, sofreram a mais pesada derrota. Fugiram em pânico. Afinal, a Arca não os livrara!...
Como então, ainda hoje temos a fantasia de conter Deus em símbolos, relíquias, lugares e templos aonde vamos à busca de milagres. Mas é impossível “encaixotar” Deus, limitá-lO, manejá-lO a nosso gosto, pô-lO a nosso lado em aventuras e conquistas de qualquer ordem.
Deus não pode ser contido em objetos de culto, preservado em superstições ou em saudosismo histórico. O único lugar que Ele pretende ocupar é o coração. Deus não deseja ser usado como arma de defesa em horas tensas, mas ser o Amigo que permanece em nós a todo o instante. Jesus Cristo disse a uma mulher de Samaria que O interrogava acerca de lugares preferidos de Deus para receber culto ou adoração: “Deus é Espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade” (I João 4:24).
Mais e melhor do que numa caixa dourada, podemos ter Deus no coração. O próprio Senhor disse, numa analogia preciosa: “Eis que estou à porta, e bato: se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa” (Apocalipse 3:20)
Dr. Jorge de Barros

sexta-feira, 20 de junho de 2008

TEMPO DE LOUCURA

Naquele início de tarde do fim do mês de Junho, estávamos à sombra de uma daquelas árvores – cujo nome nunca me preocupei em saber mas que continuo a amar – que ladeavam a rua de norte a sul dando-lhe uma característica típica, para além da evidente frescura, particularmente nas tardes estivais.
De uma das casas das redondezas, ouvíamos o início de “uma canção para o seu trabalho” da então Rádio Clube de Cabo Verde.
Éramos cinco: um adulto próximo, três garotos moradores da mesma rua, possivelmente todos da mesma idade e eu, talvez, uns dois anos mais velho, o que na altura fazia diferença.
O calor era intenso, sufocante e o silêncio era quase total, não fosse a música já referida, que em princípio, deveria incitar as pessoas, para as tarefas da segunda parte do dia.
De forma quase inopinada, sem que nunca tenha entendido a razão um dos moços disse:
- Na nossa rua temos três doidos!
A letargia era tal que a conversa não pareceu despertar a nossa atenção, mas talvez por insatisfação pela falta de reacção que poderia estar à espera ou por simples irreverência, começou a citar os nomes por ele, então, considerados loucos.
Rapidamente, descreveu como pôde o primeiro e não teve problemas em citar o nome. Vendo bem as coisas, o citado devia ter algum problema de aprendizagem. Aliás o futuro veio a prová-lo através de um desempenho escolar muito aquém do esperado e atingido pelos colegas de então.
Ninguém fez caso e o nosso companheiro depois de tecer um ou outro comentário nomeou o segundo que, diga-se a verdade, passava por ter alguma dificuldade mental.
Nossas orelhas continuavam moucas, seguramente porque não discordávamos das suas tiradas intempestivas.
E, todo garboso, o moço rematou:
- O terceiro…
No momento, o adulto que parecia distante da conversa da garotada, certamente sabendo – como nós – a quem iria se referir, pois se lhe atribuía (exageradamente) notável atraso mental e, possivelmente prevendo algum mal-estar com os pais considerados na altura com alguma posse, levantou a cabeça e fixou-lhe os olhos, sem dizer uma palavra.
Repentinamente, o nosso moço, brejeiro como ainda hoje, homem maduro, continua a ser, completou:
- O terceiro sou eu, sou eu o terceiro, sim, sou eu o terceiro!
E o locutor da Rádio, com sua voz forte, anunciou o fim da canção para o trabalho. Loucuras de uma infância cheia de inocência – e de malícia – perdida há muito tempo. Tempo de loucura!
Daniel Silves Ferreira
Psiquiatra

Rua do Corvo - Praia

Quem se lembra dessas "casinhas" bonitas?
Afinal, Praia da nossa meninice!!!

TIVE FOME

Tive fome
E tu formaste um clube humanitário

Para discutir a minha fome.

Obrigado.
Estive na prisão
E tu te retiraste silenciosamente
À tua linda capela nos subúrbios
E oraste pedindo que eu fosse libertado.
Estive nu
E tu meditaste seriamente
Na moralidade ou imoralidade
Da minha aparência.
Estive enfermo
E tu ajoelhaste
E agradeceste a Deus
Por tua saúde.
Não tive abrigo
E tu pregaste
Acerca do refúgio do amor de Deus.
Estive só
E tu me deixaste sozinho
Para ir orar por mim.
Tu parecias tão santo,
Tão perto de Deus;
Mas eu ainda tenho muita fome,
E estou muito só,
Enfermo
E frio.

-anônimo-

TESOUROS OCULTOS

Eram dias de muita agitação política. Um dos nossos jovens foi preso sob a acusação de pertencer a grupo dissidente.
Horas depois, pedia que lhe levássemos a Bíblia. O livro estava todo sublinhado a várias cores.
Suspeitando que se tratasse de algum código secreto, as autoridades recusaram permitir a entrada das Escrituras na prisão.
A igreja mandou ao jovem uma Bíblia completamente nova. Onze meses mais tarde, o rapaz foi absolvido de qualquer crime, e solto. Comentando o episódio do livro rejeitado e do novo exemplar sem quaisquer marcações, o ex-preso deu-nos que pensar. Disse ele que fora até bom iniciar a leitura de uma Bíblia sem sinais a marcar versículos familiares. Subitamente ele começara a notar novas passagens. Saturou a sua alma com mensagens frescas e ganhou força para os dias negros da prisão.
Conheço um homem que sempre esperou de seus filhos um novo texto das Escrituras em cada culto familiar. A exigência parecia então dura, mas os filhos confessam hoje que lhes deu acesso a um esconderijo de preciosidades.
Há novos mundos a descobrir entre as capas da nossa velha Bíblia. Passagens que pareciam despidas de valor, ganham luz e colorido sob perspectivas novas. O meu pastor surpeende-me com descobertas especiais em textos que já li tantas vezes ou até decorei. Até da aridez das genealogias costumam brilhar gemas de raro esplendor.
Livro singular, a Bíblia Sagrada. Mais antigo que nações multisseculares é, entretanto, mais fresco que o jornal da manhã.
Os artigos deste número de o ARAUTO DA SANTIDADE ligam-se quase todos à Bíblia. Ao exaltarmos a Palavra, engrandecemos o seu Autor. Mesmo nas Lamentações, Jeremias teve de confessar que as misericórdias do Senhor são novas a cada manhã (3:22.23).
Assim, também, é a Palavra do Senhor.

Enquanto, ó Senhor, Teu Livro eu ler,
Meus olhos vêm abrir, Te quero ver.
Da mera letra além, a Ti Senhor,
Eu busco a Ti, Jesus, meu Redentor. (G.D., 385)
Jorge de Barros

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Dia do Pai

Celebramos ontem o dia do Pai, 15 de Junho, ou seja terceiro domingo! Nada que nos ligasse ao dia de S. José, em Março, mas, seguindo a inspiração que nos veio de Washington, no século passado!
Realmente desde a Escola Dominical, até o serviço evangelístico, tudo foi preparado para eles se sentirem, mais uma vez realizados!
Ninguém nos disse que a tarefa de sermos pais, era fácil, mas, sim gigantesca e a reclamar oração, testemunho, paciência e muito amor.
Dezenas de pais vieram ontem! Cantaram, participaram em entrevistas, testemunharam, receberam prendas e foram alvos de muito carinho!
Hoje de manhã, retomamos nossas actividades e a celebração tão especial, ficou no passado, como lembrança de 2008!
Convém guardar o desafio da mensagem do pastor, pai também, que quis lembrar aos “colegas”, estarmos a viver dias diferentes, reclamando novas abordagens, mas, seguramente com base no Livro – A Bíblia Sagrada!
Pai que cumprirá suas responsabilidades, terá de guardar de entre outros requisitos, os seguintes: ser amigo, ser irmão, ser mestre e ser sacerdote!
Quem nos dera um compromisso nacional e mundial de todos os pais crentes e nazarenos ou cristãos!
Saudações aos pais que neste Dia Especial, reconhecem e se comprometem a:” ensinar o menino no caminho em que deve andar…”
Paremos de tentar ensinar o que não sabemos e nunca experimentamos. Eles, os nossos filhos e os que estão perto, saberão classificar tal atitude!
Ele, Jesus Cristo é o Caminho. Então, tão-somente ensinemos acerca d´ELE!
Feliz Dia, para todos os pais nas ilhas e no mundo inteiro.
“ A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Amem!
Pastor Adérito Silves Ferreira

TEMPO DE LOUCURA

Não fosse a visível aflição da mulher, nada poderia dizer que ela estava à procura de um atendimento de urgência naquela circunstância pouco habitual.
Fiquei intrigado. Queria saber a razão e, muito rapidamente, fiz a minha apresentação rotineira.
Contudo, a preocupação dela, certamente devia ser outra, pois, que não pareceu dar nenhuma atenção à minha conversa.
Praticamente sem interregno, eu quis inquirir sobre o sucedido que a tinha levado a procurar-me para pedir ajuda.
- Não sou eu! É o meu filho que bebeu uns comprimidos e está a passar mal. Desaparece tudo por um tempo e subitamente recomeça.
Ela não sabia a natureza nem o número de comprimidos ingeridos mas teria sido na manhã daquele dia.
O médico no Banco de Urgências teria sugerido a minha avaliação e, não podendo ver o filho a sofrer tanto, quis ir pessoalmente procurar a pessoa que se lhe tinha indicado. Com efeito, naqueles dias, eu estava escalado para o serviço de urgências.
Foi só atravessar o pátio do hospital, de modo que não demorei a lá chegar. Fui encontrar o filho, o moço de 10 anos, razoavelmente bem constituído, extremamente ansioso, pescoço torto e esticado para trás, os músculos da cara tensos e repuxados, a boca aberta sem possibilidades de ser fechada, soltando uns grunhidos de dor.
Achei tudo muito estranho então, quis inteirar-me melhor do sucedido, se seria uma ingestão acidental ou intencional.
Depois de umas perguntas, soube que o miúdo queixava-se sempre de dores de cabeça, que geralmente cediam com comprimidos que a mãe comprava nas mercearias do bairro. Naquela manhã, na ausência dela ele teria ingerido uns comprimidos que o filho de uma vizinha lhe tinha oferecido.
Se já não havia dúvidas tudo ficou ainda mais claro quando me apercebi que a tal vizinha era seguida no Serviço de Psiquiatria.
Solicitei à enfermeira que administrasse um fármaco, o que foi feito prontamente.
Pouco depois, o menino já estava melhor, podia falar e, desenvolto, confirmou que tomou dois comprimidos que o colega e vizinho lhe dera.
Expliquei o que tinha acontecido, recomendei atenção para com os medicamentos e, com ar paternal, lembrei que os medicamentos devem ser sempre mantidos fora do alcance das crianças.
O tempo que levei para isso, a criança já estava melhor e a mãe, já mais tranquila. Perguntou-me, então, se era uma intoxicação e, sem esperar pela resposta, quis saber se ela iria durar mais tempo.
Tempo de Loucura!

Daniel Silves Ferreira
-Psiquiatra -
Farol Maria Pia - Praia

quarta-feira, 11 de junho de 2008

EBENEZER

Por esses dias o nosso blog, da família Lima Ferreira, ficou sem actualização prometida.
Muitos telefonaram e mandaram mensagens, indagando o porquê, pois tínhamos desejado acelerar, acelerar sempre, no nosso contacto com os amados, das ilhas e mundo!
Pois bem, amados, é que depois de vinte anos voltamos outra vez à “escola”, com estudos, pesquisas, trabalho de grupo, exames e notas! As coisas nos correram bem!
Tivemos de reorientar o nosso horário familiar, pastoral e social, que até certo ponto ficou a depender dos estudos.
Felizmente, terminamos as seis matérias ministradas por professores e colegas de ministério de Campinas – Brasil, faltando apenas apresentar o TCC ( Trabalho Conclusão de Curso), para meados de Julho.
Queremos dizer-vos que estamos de volta à vossa comunhão, alegres e motivados, como sempre.
Neste regresso, para além dos nossos colaboradores de sempre, fomos ao” baú da nossa caboverdeanidade”, e igreja internacional, buscar riquezas que certamente serão bênção!Prometemos mais! Realmente, até aqui nos tem ajudado o Senhor!
“ A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vós todos.” Amém!
- Pastor Adérito Silves Ferreira -

Mãe em greve

A senhora arrastou a cadeira para o meio do jardim, protegeu-se com um guarda-sol e prendeu a uma estaca um dístico insólito: MÃE EM GREVE.
O marido e os três filhos jovens acharam que fosse coisa passageira. Mas a noite desceu e a senhora não entrou em casa. A chuva fustigava o telhado, mas a mãe deixou-se estar, tão ensopada já como o seu letreiro.
No terceiro dia a nova já era conhecida na pequena cidade americana. Apareceram jornalistas e câmaras de televisão.
A senhora falou. Disse que estava cansada de ser tratada como coisa; disse que os da casa pensavam que ela era máquina de cozinhar, lavar roupa , limpar os quartos, acariciar e amar; disse que nunca recebia em troca dos seus serviços e devoção, o mínimo sinal de afecto e reconhecimento. Por isso, desabafou a senhora, declarara a greve.
Em que condições suspenderia a greve? Bem, a mulher lá tinha o seu papel com tudo escrito, ponto por ponto. Ela exigia ajuda em termos práticos e para tarefas específicas; queria também um pouco de carinho, umas flores de vez em quando - em vez do tom indiferente ou mesmo reprovador com que recebiam o seu labor diário.
Embaraçado e meio faminto, o marido assinou o contrato. Fez mais: encomendou uma dúzia de rosas vermelhas para a grevista. Dois filhos também assinaram.
Mas a moça de dezesseis anos gritou “Chantagem!” e disse que não. Influenciada por colegas da escola, recusava-se assinar o papel. Vieram mais chuvas, mais curiosos, mais fotógrafos e críticos de opinião dividida. Ao quarto dia, a jovem capitulou. A mãe arrancou a estaca com o letreiro, arrumou o cabelo e entrou em casa.
Qualquer que seja o nosso parecer a respeito da situação geral desta família indubitavelmente perturbada, será impossível esquecer o grito lançado. A idéia de uma greve no lar é para nós inaceitável , mas as razões que a desculparam deixaram de ser tão estranhas. “Honra a tua mãe”, é um mandamento que exige algo mais que um cartão florido num dia programado para o efeito. Milhares de mães que jamais entrariam em greve vivem na lama e sede dumas palavras e expressões práticas de amor em datas sem fanfarra. Como disse uma delas: “seria com receber o maior presente de Dia da Mãe, mas em prestações diárias.”
Dá que pensar.

- Jorge De Barros -

Carta Amiga para Pastores

Saudações no nome do Senhor! Estou certo que você está desfrutando da graça e da paz de Jesus em seu ministério e vida pessoal.

Nestes dias do início do século 21 se apresenta uma incrível oportunidade para o ministério. Meus colegas e eu estamos nos regozijando na abundante evidência da presença e unção de Deus sobre os nazarenos ao redor do mundo. Estamos cientes do seu sacrifício e serviço para Deus à medida que seu reino avança através de nossa denominação. Saiba que você é muito estimado!

A tecnologia apresenta uma tremenda ferramenta para o ministério nestes tempos. A Junta de Superintendentes Gerais apoia seu uso na realização de nossa missão global. Também estamos nos conscientizando cada vez mais dos perigos que acompanham esta tecnologia perigos para nosso ministério e nosso povo. Recentemente nos deparamos com novas questões que nos sentimos compungidos a tratar. Estou me referindo especificamente ao lado negativo da tecnologia dos computadores que inclui material de violência e pornografia tão facilmente acessível via Internet.

Os pastores não estão mais imunes a estas poderosas tentações do que nós que estamos no ministério aqui nos E.U.A. Uma pesquisa recente em outra denominação de um grupo de ministros que havia se tornado viciado em "pornografia cibernética" relaciona sete razões principais para o seu vício: Anonimato, criação de uma nova pessoa, baixo custo, oportunidade ilimitada, segurança, redução do estresse, rápido acesso e falsa intimidade. A pornografia via internet pode levar a outros desvios de conduta sexual possíveis. Para manter nossa pureza como chamados e enviados de Deus, devemos ser individualmente vigilantes contra estas sutis maquinações. Além disso, devemos alertar e oferecer recursos para todos nossos pastores e leigos no mundo inteiro para que possam resistir este mal traiçoeiro.

Cremos que devemos lidar de forma pró-ativa com este assunto que tem o potencial de gerar implicações legais e espirituais muito sérias para todos nós. Portanto, urgimos para que você trabalhe juntamente com nossos líderes nacionais, pastores e leigos da seguinte maneira: Desenvolvendo uma política para monitorar e prevenir o uso indevido da internet, compilar uma lista de conselheiros cristãos competentes para fins de referência, providenciar materiais educacionais apropriados, e considerar seminários/oficinas com profissionais treinados.

Não queremos tratar este assunto de forma leviana. A Junta de Superintendentes Gerais se sente constrangida a compartilhar nossa preocupação sobre estes consideráveis perigos. Oferecemos nossa parceria para fortalecer nossa equipe de liderança em todo o mundo para modelar a integridade moral, encorajar e equipar nosso povo a viver a pureza de Cristo em meio aos nossos grandes dilemas morais.

Obrigado por sua atenção e oração que dedicará a esta questão. Que as coisas importantes em sua vida e ministério continuem prosperando.

Sinceramente em nosso Senhor,

Jim L. Bond,
Secretário da Junta de Superintendentes Gerais

(publicada em Abril 2001)

Ponte velha de Vila Nova

A resistir e a ligar desde os anos 60! Saudades do Armindo, de Jorge -" FOI"

TEMPO DE LOUCURA

Os cabelos prateados, a cara borrada de pó de arroz, os lábios tingidos de vermelho carmesim, davam àquela senhora já sexagenária, um ar cómico.
Puxava o marido pela manga do blusão e não se fez rogada. Falava com uma rapidez tremenda e uma mudança repentina de assunto que dificultavam a compreensão. Depois de algum embaraço meu ao convidá-la para sentar-se, não hesitou em oferecer a cadeira ao esposo, ainda calado.
Disse ter concordado com o marido dado que das outras vezes já tinha aceite ficar internada para tentar curá-lo, mas, sem uma solução, queria que ele ficasse hospitalizado até a cura. Velho e não podendo gozar a vida, só podia sentir ciúmes dela.
Perguntou-me pelo nome, que não ouvira quando me apresentei como não esperou pela resposta e, já ìa dizendo que eu era pardo, cor linda que os patrícios quando não o eram, tinham-no no sangue. Uma cor bonita. Bastava ver os colares que, graças a Deus, sempre teve. Deus, lá dos céus, que também lhe tinha dado os poderes e a mais ninguém.
Tentei intrometer-me, mas, estava ela já à janela daquele Pronto Socorro. Pôs-se a cantar “I´m singing in the rain..” e quis sair. O marido se opôs com firmeza. Irritada, virou-se para mim e, disse: “ Cuide deste homem que não sabe o que é a vida; eu vou tomar um banho. A chuva é maravilhosa”…
O marido pôde, então, participar na entrevista. A esposa era conhecida no hospital, onde já tinha sido internada. Mal a mulher ouviu a última palavra berrou: “Você é que vai ficar internado” e fez ameaças que ele não ligou.
No meio de um mexer constante e da contenção do marido soube que não dormia e, nesse dia, ela tinha desarrumado tudo de tanto arrumar, tomado mais de dez banhos; só queria sair porque estaria enfadada com a vida de ócio. As crises pareciam ter desaparecido e ela abandonou os remédios.
Adoecera trinta e cinco anos antes, tinha vários internamentos e seguimento regular naquele hospital desde que mudaram de cidade “para poderem estar perto do filho que podia ajudar nas crises”.
“Crises! – replicou – você é que está em crise, crise de ciúmes e hoje você vai ver o que meu diploma vale”.
Foi por aí que entrei no seu raciocínio e voltaram as gargalhadas, apesar da notável rouquidão.
A decisão foi o internamento. Aceitou, para se ver “livre de um homem doente de ciúmes”.
Depois, foram semanas e meses de convívio, sempre alegre, com os cabelos prateados, a pele branca sem pó de arroz. Inspirava-me simpatia e recordava-me as imagens, as palavras, a rapidez das frases quase ininteligíveis, a actividade exagerada, a alegria e depois a irritabilidade, o “ du coq à l´âne”(literalmente, do galo ao burro, fuga de ideias, para nós),que aprendera a reconhecer anos atrás.
Uma história de um outro tempo. Tempo de loucura!

- Daniel Silves Ferreira –
Psiquiatra