sábado, 28 de junho de 2008

Ângela & Sónia

Merecidas férias!!! Voltem depressa!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Tempo de Loucura

Com pouco mais de vinte anos, o homem viera enlouquecido de Santo Antão onde fora professor primário. Talvez por isso ligou-se rapidamente aos estudantes e tornou-se frequentador das redondezas do liceu onde cursávamos o último ano.
A presença de pessoas de horizontes diferentes era habitual, mas, o equilíbrio geralmente se mantinha a favor dos estudantes.
Porém, a euforia daquele ex-professor barbudo por tão exagerada não passava despercebida sem que por isso perdesse a nossa estima.
Merecia até uma atenção especial da nossa parte pelo seu jeito de falar, seu discurso e sobretudo pela alegria e gargalhadas quase constantes.
Nesse dia todas as actividades escolares estavam canceladas, devendo cada um de nós participar na recepção pública de uma comitiva de um país amigo.
A concentração era na praça central da cidade. O professor em férias forçadas acompanhou-nos. No local aninhámo-nos sob uma árvore e o amigo, muito animado não parava de falar.
Da varanda que servia de podium, alguém deu inicio à cerimónia. A apresentação dos visitantes era feita de forma intercalada com os vivas que a multidão respondia em uníssono e alguns aplausos ruidosos e prolongados. O homem transbordava de energia.
Depois das primeiras apresentações vieram homens e mulheres de condição visivelmente humilde. As palavras sobre o seu passado eram elogiosas e alguns tinham ascendido a lugares de alguma responsabilidade.
Regozijámo-nos sobretudo com a presença em tão alta delegação dessas mulheres que logo apresentadas, gritavam vivas com um sotaque peculiar.
Não durou muito que, mal chegasse uma das nossas predilectas, o nosso homem numa euforia singular, dobrava a língua e imitava, deturpando um pouco a pronúncia, de forma a gritar vivas às “palhas de chá”. E sem transição, o alecrim, a losna, a belgata, a cidreira e toda ervanária tradicional eram lembrados em vivas no meio de gargalhadas, para nossa grande satisfação.
Estranho foi o facto de alguns dias mais tarde num funeral de uma adolescente, quando alguém se lembrou do discurso fúnebre, ele se ter lembrado de novo dos seus vivas à ervanária nacional. Chegou-se a desconfiar que algum estudante o teria incitado.
Não passou muito tempo, tivemos a noticia que nosso amigo se enforcara num pardieiro do seu bairro. Na verdade, pouco tempo. Tempo de loucura!

- Daniel Silves Ferreira –
Psiquiatra

Vítimas do abandono

A senhora escreveu, em grande aflição, dizendo que fora abandonada, com seus onze filhos, pelo marido aventureiro. Desejava saber que passos tomar, que fazer em tal circunstância crítica.
O abandono é mais que problema isolado da esposa que assinou a carta. Queixam-se pessoas de todas as idades e condições dessa praga que se alastra pelo nosso mundo. Ora são infantes abandonados em caixas de sapatos ou mesmo em depósitos de lixo; ora são crianças deixadas no meio da rua ou em lugares ermos; ora são jovens a quem os pais convidam a desaparecer da sua vista; ora são cônjuges desertados a meio da noite; ora são velhos que se acham desamparados e sem recursos – em casas vazias de tudo, em asilos indiferentes, ou em hospitais aonde ninguém vai para os visitar.
Há, também, aquele outro abandono sofrido por muitos que, paradoxalmente, se acham cercados de gente, mesmo de familiares. É a rejeição emocional, aquele vazio transmitido pela experiência de que ninguém se importa com o que nos sucede.
A vida toma cores trágicas quando nos invade a impressão do abandono. Em alguns, isto causa uma profunda depressão; em outros, principalmente na classe jovem, há um recrudescimento de violência, como que um grito a assinalar uma vida ignorada.
Uma das mais trágicas conseqüências do abandono é a imagem que deixa nas suas vítimas de que para nada valem. Quando tratadas como lixo, tendem a classificar-se de lixo. Justificam até o comportamento baixo como natural em pessoas a quem a sociedade rejeitou como se de nada valessem.
O problema é antigo e universal. O salmista Davi escreveu: “Quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me receberá” (Salmo 27: 10). A situação de abandono não poderia ter sido pintada em cores mais negativas: rejeitado por pai e mãe. O cúmulo da solidão humana acha aqui simbolismo gritante. Dele recebemos a idéia de ausência total de carinho, proteção, sustento, estímulo, educação e bases de identidade. Em ambiente como este, danos psicológicos, morais e sociais atingem a escala máxima. Mas é também deste ponto que o Salmista faz a afirmação de maior significado para toda a vítima de abandono: “O Senhor me recolherá” (Salmo 27: 10).
Esta mensagem não é utópica ou um tipo de esperança oca sobre a qual indivíduos solitários tentarão reinventar. Estamos, também, em presença de uma promessa garantida de Deus. Ele nos recolherá – não a um asilo de caridade “oficial”, mas à intimidade de Alguém que nos ama supremamente.
“Quando o meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me recolherá”. A frase não prevê uma desgraça inevitável, mas acentua uma provisão animadora. Não há vida ou circunstância, por mais solitária, para a qual não haja o recurso da companhia de Deus.
É nas palavras do mesmo Salmista que achamos esta expressão de júbilo: “Até o pardal encontrou casa, e a andorinha, ninho para si e para sua prole, junto dos teus altares, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu” (Salmo 84: 3). Todo e qualquer abandonado pela insensibilidade ou pela dureza de homens, tem ainda o Braço Redentor – o de um Deus ansioso por recolher quantos criou pelas Suas próprias mãos. Mas, como agência de Deus na sociedade, cabe também à Igreja estender e acolher desamparados. Se a missão é demasiado grande para as nossas forças inventariadas, lembremos que a Igreja Lhe pertence e Deus jamais falhou em providenciar recursos para a Sua própria Casa. Junto dos altares de Deus, a solidão e o abandono devem ceder lugar ao companheirismo responsável de pessoas irmanadas em Cristo.

Dr. Jorge de Barros

terça-feira, 24 de junho de 2008

Pecado

“Qualquer coisa que enfraqueça a tua razão, obscureça a tua percepção de Deus ou usurpe o prazer das coisas espirituais, qualquer coisa que faça aumentar a autoridade do teu corpo sobre a tua mente, essa coisa é para ti pecado”.
Nunca me interessei em saber as qualificações académicas, de Susana Wesley, mãe de John Wesley – esse grande homem de Deus, inglês e pregador de santidade.
Qualquer um sente, no entanto, o nível espiritual da madame Wesley, quando proferiu uma das mais convincentes e esclarecedoras definições de pecado, se não para todos, pelo menos, para os seus queridos filhos!
Sim, esse mesmo pecado que alguns teimam em dizer ser uma invenção da igreja, para dificultar os homens de viverem a sua vida “di se manera”!
Digamos que para um exame em classe de teologia ou doutrina de santidade, fosse esta a resposta que o professor exigente aceitasse como correcta, para definir o pecado:”…desobediência voluntária a uma lei de Deus, conhecida…”!
Essa desobediência não é sinal de enfraquecimento da razão? Não é virar as costas a Deus e preferir as trevas? Que dizer, agora do objecto principal do nosso prazer? Não é o corpo a governar a mente? Afinal, convenhamos que nossa irmã Susana teria nota Excelente, se o exame apresentado tivesse uma única questão, (defina o pecado)!?
Teorizamos em demasia acerca do pecado, e deixamos nossos ouvintes e ovelhas, também, em grande confusão, a ponto de como “o outro”, que vociferou: “pecados não existem mais, pois foram todos cometidos no passado!!!
É responsabilidade nossa responder e ensinar ao nosso povo, com um categórico NÃO, a essa superficial e falsa afirmação!
Uma igreja de santidade, tem obrigação de ver seus santos, obreiros e leigos, a compartilhar a mensagem de libertação dos pecados e do pecado!
Felizmente, Seu sangue tem poder e o Espírito Santo opera ainda hoje.
“ A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vós todos”. Amém!

- Pastor Adérito Silves Ferreira -

QUEBRA CANELA

Com o calor que aperta, um mergulho com cuidado!!

UM DEUS ENCAIXOTADO

Por anos vivi junto a um porto movimentado.
Pela noite a dentro ouvia-se o apito de barcos. A qualquer hora do dia o cais pulsava de vida. Guindastes suspendiam caixas de formato e procedências mais diversos. Continham desde peças para carros a artigos de mercearia. Uns traziam caracteres orientais, outras letras e números num código qualquer.

Hoje encaixotamos tudo. Os próprios barcos e aviões têm grandes contentores onde a carga é empilhada para transporte rápido e mais seguro. Até quem desejasse, “encaixotar a Deus” e levá-Lo de lado para lado, onde mais urgente se fizesse Sua presença!

A experiência gorou com a chamada Arca da Aliança (ou do Testamento). Tratava-se de objeto central do Tabernáculo, uma espécie de templo portátil dos judeus. Construída de madeira de acácia, revestida de ouro por dentro e por fora, a Arca tinha um metro e 22 centímetros de comprido, por 76,23 centímetros de largura. Servia, especialmente, pára guardar as duas tábuas da Lei. Havia também nela uma vara simbólica pertencente ao sacerdote Arão, e um vaso com maná – tipo de alimento que salvou o povo na sua peregrinação pelo deserto.

As dimensões modestas e o conteúdo da Arca não traduzem, de forma alguma, a vastidão da importância que os antigos deram a esta caixa misteriosa. Era mais que a bandeira duma nação. Simbolizava a presença real de Deus no meio dum povo. A Arca recebia honras negadas a qualquer mortal. Só poderia ser transportada por um grupo seleto de pessoas sujeitas a rigorosos rituais de purificação.

Lemos dum episódio nacional no qual foi dada à Arca relevo extraordinário (I Samuel4). O país estava em guerra. O povo que se afiliava a Deus, professando possui-lo em exclusivo, marchou ao campo de batalha onde sofreu pesada derrota. Foi então que se lembraram da Arca. E se a levassem para o centro da refrega? Não representava a Arca a presença imediata de Deus? Por certo, pensavam eles, nada poderia derrotá-los tendo Deus a seu lado.
Levaram a Arca para a batalha. Mas, para surpresa de muitos, sofreram a mais pesada derrota. Fugiram em pânico. Afinal, a Arca não os livrara!...
Como então, ainda hoje temos a fantasia de conter Deus em símbolos, relíquias, lugares e templos aonde vamos à busca de milagres. Mas é impossível “encaixotar” Deus, limitá-lO, manejá-lO a nosso gosto, pô-lO a nosso lado em aventuras e conquistas de qualquer ordem.
Deus não pode ser contido em objetos de culto, preservado em superstições ou em saudosismo histórico. O único lugar que Ele pretende ocupar é o coração. Deus não deseja ser usado como arma de defesa em horas tensas, mas ser o Amigo que permanece em nós a todo o instante. Jesus Cristo disse a uma mulher de Samaria que O interrogava acerca de lugares preferidos de Deus para receber culto ou adoração: “Deus é Espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade” (I João 4:24).
Mais e melhor do que numa caixa dourada, podemos ter Deus no coração. O próprio Senhor disse, numa analogia preciosa: “Eis que estou à porta, e bato: se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa” (Apocalipse 3:20)
Dr. Jorge de Barros

sexta-feira, 20 de junho de 2008

TEMPO DE LOUCURA

Naquele início de tarde do fim do mês de Junho, estávamos à sombra de uma daquelas árvores – cujo nome nunca me preocupei em saber mas que continuo a amar – que ladeavam a rua de norte a sul dando-lhe uma característica típica, para além da evidente frescura, particularmente nas tardes estivais.
De uma das casas das redondezas, ouvíamos o início de “uma canção para o seu trabalho” da então Rádio Clube de Cabo Verde.
Éramos cinco: um adulto próximo, três garotos moradores da mesma rua, possivelmente todos da mesma idade e eu, talvez, uns dois anos mais velho, o que na altura fazia diferença.
O calor era intenso, sufocante e o silêncio era quase total, não fosse a música já referida, que em princípio, deveria incitar as pessoas, para as tarefas da segunda parte do dia.
De forma quase inopinada, sem que nunca tenha entendido a razão um dos moços disse:
- Na nossa rua temos três doidos!
A letargia era tal que a conversa não pareceu despertar a nossa atenção, mas talvez por insatisfação pela falta de reacção que poderia estar à espera ou por simples irreverência, começou a citar os nomes por ele, então, considerados loucos.
Rapidamente, descreveu como pôde o primeiro e não teve problemas em citar o nome. Vendo bem as coisas, o citado devia ter algum problema de aprendizagem. Aliás o futuro veio a prová-lo através de um desempenho escolar muito aquém do esperado e atingido pelos colegas de então.
Ninguém fez caso e o nosso companheiro depois de tecer um ou outro comentário nomeou o segundo que, diga-se a verdade, passava por ter alguma dificuldade mental.
Nossas orelhas continuavam moucas, seguramente porque não discordávamos das suas tiradas intempestivas.
E, todo garboso, o moço rematou:
- O terceiro…
No momento, o adulto que parecia distante da conversa da garotada, certamente sabendo – como nós – a quem iria se referir, pois se lhe atribuía (exageradamente) notável atraso mental e, possivelmente prevendo algum mal-estar com os pais considerados na altura com alguma posse, levantou a cabeça e fixou-lhe os olhos, sem dizer uma palavra.
Repentinamente, o nosso moço, brejeiro como ainda hoje, homem maduro, continua a ser, completou:
- O terceiro sou eu, sou eu o terceiro, sim, sou eu o terceiro!
E o locutor da Rádio, com sua voz forte, anunciou o fim da canção para o trabalho. Loucuras de uma infância cheia de inocência – e de malícia – perdida há muito tempo. Tempo de loucura!
Daniel Silves Ferreira
Psiquiatra

Rua do Corvo - Praia

Quem se lembra dessas "casinhas" bonitas?
Afinal, Praia da nossa meninice!!!

TIVE FOME

Tive fome
E tu formaste um clube humanitário

Para discutir a minha fome.

Obrigado.
Estive na prisão
E tu te retiraste silenciosamente
À tua linda capela nos subúrbios
E oraste pedindo que eu fosse libertado.
Estive nu
E tu meditaste seriamente
Na moralidade ou imoralidade
Da minha aparência.
Estive enfermo
E tu ajoelhaste
E agradeceste a Deus
Por tua saúde.
Não tive abrigo
E tu pregaste
Acerca do refúgio do amor de Deus.
Estive só
E tu me deixaste sozinho
Para ir orar por mim.
Tu parecias tão santo,
Tão perto de Deus;
Mas eu ainda tenho muita fome,
E estou muito só,
Enfermo
E frio.

-anônimo-

TESOUROS OCULTOS

Eram dias de muita agitação política. Um dos nossos jovens foi preso sob a acusação de pertencer a grupo dissidente.
Horas depois, pedia que lhe levássemos a Bíblia. O livro estava todo sublinhado a várias cores.
Suspeitando que se tratasse de algum código secreto, as autoridades recusaram permitir a entrada das Escrituras na prisão.
A igreja mandou ao jovem uma Bíblia completamente nova. Onze meses mais tarde, o rapaz foi absolvido de qualquer crime, e solto. Comentando o episódio do livro rejeitado e do novo exemplar sem quaisquer marcações, o ex-preso deu-nos que pensar. Disse ele que fora até bom iniciar a leitura de uma Bíblia sem sinais a marcar versículos familiares. Subitamente ele começara a notar novas passagens. Saturou a sua alma com mensagens frescas e ganhou força para os dias negros da prisão.
Conheço um homem que sempre esperou de seus filhos um novo texto das Escrituras em cada culto familiar. A exigência parecia então dura, mas os filhos confessam hoje que lhes deu acesso a um esconderijo de preciosidades.
Há novos mundos a descobrir entre as capas da nossa velha Bíblia. Passagens que pareciam despidas de valor, ganham luz e colorido sob perspectivas novas. O meu pastor surpeende-me com descobertas especiais em textos que já li tantas vezes ou até decorei. Até da aridez das genealogias costumam brilhar gemas de raro esplendor.
Livro singular, a Bíblia Sagrada. Mais antigo que nações multisseculares é, entretanto, mais fresco que o jornal da manhã.
Os artigos deste número de o ARAUTO DA SANTIDADE ligam-se quase todos à Bíblia. Ao exaltarmos a Palavra, engrandecemos o seu Autor. Mesmo nas Lamentações, Jeremias teve de confessar que as misericórdias do Senhor são novas a cada manhã (3:22.23).
Assim, também, é a Palavra do Senhor.

Enquanto, ó Senhor, Teu Livro eu ler,
Meus olhos vêm abrir, Te quero ver.
Da mera letra além, a Ti Senhor,
Eu busco a Ti, Jesus, meu Redentor. (G.D., 385)
Jorge de Barros